
É a estranha certeza do controle.
A ilusão de que tudo ficará bem. Em pratos limpos. Imaculados. Quisera eu ser imaculada de corpo e alma...
Até hoje choro em segredo por dores que nem eu sei ao certo quais são, ou quando começaram. Lembro-me de minha mãe comentando das minhas peripécias suicidas aos três anos de idade. Foi algo como me pendurar no cordão da cortina. O que me levou àquilo? Não faço idéia.
Talvez eu já tenha nascido com este impulso de inadaptação, com esta natureza controversa.
É estranho e incômodo revisitar alguns dos motivos que levam a tal auto-destruição.
E eu inevitavelmente revisito as minhas saudades. As conversas azeitadas na cozinha, os discos de ópera, o piano, "uma criança brilhante" - é o que escuto, diversas vezes - "a filha que eu queria poder ter".
E há tristeza naquela voz. Sei que há.
Dia e noite e solidão. Sinto fome, e frio. Chove. Contemplo os raios supostamente ameaçadores.
Não queria estar sozinha ali. A porta ficara trancada: meu pavor. É algum castigo? Fiz algo errado? Com certeza eu fiz algo errado. O que eu fiz?
É por que me recuso a comer? "Mas é da infância", todos dizem. Ou seria pela corda da cortina?
E no outro dia é um velório.
E nunca mais os discos de ópera ou o piano, ou...ou a presença e a segurança dele.
Apenas o hálito de quem acabou de beber do outro. O "pai" e sua barba que me machuca, e suas palavras que me atingiram sempre, e as mãos ímpias.
É inverno e eu quero sumir entre a multidão multicolorida. As luzes me atraem. Mas, como sempre, não há ninguém lá.
Ninguém para escutar meus gritos de socorro.
- Quantas foram as tentativas? - Ele me pergunta, com esforço para manter-se distante. É muito jovem, ainda. Inábil. Sei que se sente impotente frente a tudo o que vive: mas quem é que não se sente assim?
Penso um pouco. Contando aquela aos três anos, penso em perguntar-lhe.
- Sete. - Respondo-lhe friamente. - "E você me perguntar me dá vontade de mais umas nove. Ou só uma com resultado". - Só quero que acabe. Só quero que acabe logo.
É o esgotamento.
Nada será capaz de aliviar essas dores persistentes...intermitentes.
Por enquanto, estar vazia equivale a uma dose colossal de uma nova droga. É o meu vício, é o meu suicídio lento.
Não, não estou doente. Não quero chá, não quero comida, não quero sentir, não quero viver, não quero morrer. A essa altura, sequer quero deixar de existir.
Este é o pior dos meus venenos. Conformo-me, e sigo...sem saber como, ou até quando.
Dói tanto, ler isso. Dói porque eu gosto de você, e eu entendo, e é verdade, e você é tão linda - tão preciosa.
ResponderExcluirEu consegui entender tudo - ou quase- e faço minhas as palavras da avalanche. Eu queria poder te salvar, salvar vocês duas pra dizer a verdade.
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