"Achava que não podia ser magoada
Achava que não podia ser magoada;
achava que com certeza era
imune ao sofrimento —
imune às dores do espírito
ou à agonia.
Meu mundo tinha o calor do sol de abril
Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro.
Minha alma em êxtase, ainda assim
conheceu a dor suave e aguda que só o prazer
pode conter.
Minha alma planava sobre as gaivotas
que, ofegantes, tão alto se lançando,
lá no topo pareciam roçar suas asas
farfalhantes no teto azul
do céu.
(Como é frágil o coração humano —
um latejar, um frêmito —
um frágil, luzente instrumento
de cristal que chora
ou canta.)
Então de súbito meu mundo escureceu
E as trevas encobriram minha alegria.
Restou uma ausência triste e doída
Onde mãos sem cuidado tocaram
e destruíram
minha teia prateada de felicidade.
As mãos estacaram, atônitas.
Mãos que me amavam, choraram ao ver
os destroços do meu firma-
mento.
(Como é frágil o coração humano —
espelhado poço de pensamentos.
Tão profundo e trêmulo instrumento
de vidro, que canta
ou chora.)"
(Sylvia Plath)
Existem algumas poucas coisas das quais abri mão na minha vida. Existem algumas poucas mentiras que insisto em contar para mim, a qualquer hora.
Acho que estou me "normalizando". Passei alguns dias quase fingindo que sou uma pessoa sem transtornos. Quase... Sempre me convenço desse "quase", e é quase engraçado de uma forma insana. É pelo ridículo que carrego em mim. Como se me dissessem que eu morreria daqui a uma semana e eu gargalhasse. Afinal de contas, o que eu perderia?
Na contra-mão dos desejos de grande parte da humanidade, não quero uma vida longa. Quero uma vida justa, com a duração que deve ter. Isso por acaso é pecado?
Não me destruo por completo, a não ser por uma ou duas atitudes que protelo em mudar. Mas a cada dia, parece mais necessário que eu mesma estabeleça essas mudanças. Só não sei por onde começar. É um problema na estrutura, no âmago. E sempre machuca mexer no nosso cerne.
Assim como sempre repito que não tenho muito - ou que não tenho nada - a dizer para quem lê o que escrevo, repito para mim que tenho pouco a dizer para a fera interna.
É engraçado constatar que depois de dois anos, você ainda se esquiva de contatos mais próximos, por medo de se machucar, por medo de perder...Porque aquele monstro lá dentro grita e rasga a sua pele de dentro para fora, querendo que tudo fique exposto, querendo mostrar ao mundo que você também sente. Querendo mostrar para o mundo as feridas das quais você se envergonha porque se sente culpada.
Se os seus fantasmas ainda estão aí, é simplesmente porque você faz questão de mantê-los. Mas com que objetivo? Existem outras formas de se lembrar quem você mais amou. Lembranças que não são torturas. Você apenas não conhece algo além dessas torturas, que partem de outros ou de você mesma. Você não conhece nada além de lágrimas, mesmo querendo fingir um sorriso.
Ah, o sorriso...te cobram o sorriso, mas não sabem quanto ele te custa. Dizem que ele é belo. Não é. Nunca foi. Você não o vê assim. Você não consegue ver a beleza que não esteja do lado de fora. Não passa do sorriso amarelo, falso, forçado, que você nem consegue mais abrir. Dia após dia, o sorriso torna-se assombrado, pesado demais.
Talvez você tenha uma vida perfeita e nem tenha se dado conta disto. Não, é mais uma mentira. Quem pode se dar ao luxo de se dizer realmente feliz, de dizer que não sofre e jamais sofreu?
Dois dias atrás, eu revivi o vazio que senti há dois anos. Não porque eu estivesse de mudança, mas porque pela quarta vez perdia mais uma parte de mim naquele ano. Pela primeira vez compreendi as razões que o impeliram para aquele ato. Estranhamente, eu o compreendia. Ironicamente, estávamos mais próximos no último dia, apesar dos quatrocentos quilômetros de distância.
Tive vontade de partir, mas acabo permanecendo por razões que desconheço. É que no fundo ainda tenho esperanças. Como no mito de Pandora, primeiro vêm as provações e no final a esperança nos sorri, em meio à devastação. Mesmo que a esperança não faça sentido algum.
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ResponderExcluir"Porque aquele monstro lá dentro grita e rasga a sua pele de dentro para fora(...) Querendo mostrar para o mundo as feridas das quais você se envergonha porque se sente culpada. "
ResponderExcluirparece que foi escrito para mim.
o.o
(excluí o anterior sem querer.)