De tempos em tempos, eu costumo apelar para qualquer coisa que me faça manter um mínimo de sanidade. Nos últimos meses, a impressão que tive foi de que eu perderia o controle a qualquer momento. É algo estranho e difícil de se explicar.
Não danço mais, mal consigo estudar, minha vida social faleceu - se é que algum dia ela já existiu. Eu estou me transformando em um buraco negro. Um buraco negro cansado demais de existir, mas sem coragem de dar um suspiro final.
Preciso encarar que eu também sou algo que se esgotará mais cedo ou mais tarde. E prova disso é que nem escrever mais eu consigo. Ao menos, não tão decentemente quanto antes. Uma vergonha!
Me lembro de que, quando eu tinha meus treze, cartoze anos, e minha poesia começou a receber elogios, eu me refugiava nela e apenas nela. O maior indício de que algo não ia nada bem era eu não conseguir escrever.
Quando isso acontecia, a minha companhia constante era Chopin.
Passaram os anos, as tendências, os modismos, e as letras passaram a adquirir significado.
Nasci e cresci em Brasília, mas isso foi na década de 90, então não é de se espantar que eu não conhecesse todas as letras da Legião Urbana. Eis que um dia, num daqueles desesperos que nos levam a atitudes auto-destrutivas, eu me deparo com "Clarisse". Aquilo me tocou, e eu me vi ali. Eu já tinha passado dos catorze, mas definitivamente naquela idade eu era meio Clarisse. Descobri que essa porção de mim ainda grita forte, e grita pelo canivete nos tronozelos.
Identidade é uma coisa tão engraçada, para não dizer trágica. Eu não queria ser eu. Não queria ser quem fui, muito menos quem sou agora. Mudar? Mas como? Não, eu fico e me conformo, e tento fazer com que todos os outros me aceitem.
Quando você tem seis anos, só vê seu pai um dia por semana, e sua mãe intercala o expediente com uma faculdade durante à noite, você faz qualquer coisa para que eles notem que você existe. Você faz qualquer coisa para fugir da solidão. Você se torna um modelo, um exemplo, para suprir a necessidade de adequação, para suprir o seu pai que diz só ter desgosto dos filhos do outro casamento, para suprir sua mãe que jamais teve um sonho realizado e sem querer acaba te destruindo. Qualquer coisa vai longe demais...Vai muito além de notas maiores que oito no boletim por toda a vida escolar, vai muito além da descoberta de que mastigar algo diminui uma dor física, vai muito além de acreditar que você não tem talento algum.
Hoje, você descobre que é incapaz de achar algum talento em você, mesmo que queira. Já não se importa mais. Nem com talento, nem com vocação. Você não aceita o mundo e o mundo não te aceita. Ninguém te aceita. Você quer escapar, mas está enjaulada na trama que você mesma teceu. Enrolou-se no destino, e não há uma mão para acudir. Você tem certeza, mesmo aturdida, de que é um peso, de que é incômoda, de que atrapalha, e de que é desprezada. Isso nunca muda, por mais profundas que sejam as mudanças em você.
"E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito"
Essa música é linda, perfeita... mas cuidado.. ela ajuda a gente a ficar mais deprê ainda... digo por que eu ouvia ela sem parar, numa época em que tava numa depressão braba. Espero que você melhore..
ResponderExcluirFica na paz
Ah, Brisa...pode deixar, terei cuidado.
ResponderExcluirTambém a escutava direto, quando a minha depressão me levou a tentativas de suicídio, há anos. Mas agora, ela é para mim apenas uma música, e como às vezes não consigo colocar nada para fora de jeito nenhum, a música serve.
Obrigada.
E fique na paz, também.