quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ensaio para o caos








É algo irrespondivel, essa fraqueza. Por tanto tempo andando em círculos, acabamos nos acostumando a este desprezo silencioso. Navalha contra carne, contra os ossos, contra os dentes.

Desola a visão da aridez, da ácida aridez irremovível, irremediável.

Uma vida incompleta, a quase-morte, a via-crúcis. Explicações que se tornaram inválidas.

Jamais tive o intuito de comover. No início, e até hoje, é apenas sumir, sumir, sumir...Sem deixar vestígios para esses olhares acusadores.

Tampouco trata-se sobre medidas, nem é tão fútil quanto parece.

Sombras no espelho e as sobras do amor-próprio, e tudo aquilo que faz tanta falta.

Dói. Uma falha seguida por outra. O que é realmente válido? É nocivo, bem sei, mas ainda é parte da minha identidade, não é? Vai muito além das aparências.

Não é o extremo que mata, são essas recaídas sem fim. E os planos em ruínas. E o não-querer-mais-acordar.

"Esteja aqui às 14 horas", eles me dizem. E bem pouco antes disso estou lá, em casa, as escadas em espiral rodando ainda mais, e meus cabelos no chão, junto com os grampos que os prendiam, e tento me lavar, me livrar de meus pecados. Mas quais pecados?

Não posso reclamar, eu acho. Mas ainda há o caos.

Estou entre o sol e a terra bem vermelha, e a roupa branca, e o jaleco que cai das minhas mãos vermelhas, e meus olhos também vermelhos, mesmo que eu não tenha chorado. E os pequenos comprimidos brancos, quatro vezes ao dia, e o caos se dissolve em uma sinfonia. É uma normalidade um-pouco-mais-do-que-fingida, alucinada.

No caminho para cá, encontro os inúmeros homens das construções.

"Não mexa com a menina", diz um deles para o outro, e eu não posso evitar, simplesmente me afogo, e vou fundo, mais fundo do que qualquer um poderia desejar. Parte de mim diz que jamais fui uma menininha indefesa. A outra dilacera-se...há quanto tempo alguém não me chama de menina? É que me sinto assim, criança. Frágil, indefesa e sem aquele maldito senso de valor ou de perigo.

E quase me param para um sermão sobre o valor, a beleza, o dom e a obrigação da vida, um dos mesmos homens da construção que levou três dias para rebocar aquele muro.

Nunca quis salvação, fujo de qualquer obrigação, então me vem um sorriso amarelo. Estou atrasada.

Os carros por aqui não respeitam mais as faixas de pedestres, por mais que se estique o braço. "Sinal de vida", foi o que nos ensinaram na escola há uns doze anos ou mais.

E agora há a questão da nota, e ele por algum motivo aumentou a minha, mas nada digo. E meus braços tremem e mal consigo segurar o caderno. Não são 48, são 72. Setenta e duas horas e nada pela boca, nada, nada.

E eu me entristeço por ela, e por todas as outras.

São três prédios, dois verdes, um laranja. Agora eles me parecem monstruosos, enormes, titânicos. Tremo um pouco, há aquele nada, aquela escuridão, a vertigem por um segundo.

Ainda acho que posso lutar contra mim e o relógio é barulhento e incômodo porque arrasta-se, suas horas não passam. Minhas horas não passam logo.

E eles novamente me obrigam a olhar no espelho, e novamente eu nego o que vejo ali. Não era isso que eu queria, nunca foi. Mas não se pode ter o que se quer, e não se escolhe o que se tem, e eu tento seguir.


Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Um comentário:

  1. que coisa mais linda, dolorida e verdadeira... nem sei o que dizer. me sinto mal por soltar um comentário assim tão ridículo, mas estou até mesmo sem palavras.
    :*

    ResponderExcluir